HPV: O Que É, Como se Transmite e Suas Consequências na Saúde da Mulher

Entenda o vírus mais comum em pessoas sexualmente ativas e por que o acompanhamento ginecológico faz toda a diferença.

O HPV (Papilomavírus Humano) é uma das infecções mais comuns entre pessoas sexualmente ativas — e também uma das mais cercadas de dúvidas, medos e informações incorretas.

Neste artigo, você vai entender o que é o vírus, como ele se transmite, quais são suas consequências para a saúde da mulher e como preveni-lo — com base em evidências científicas atuais.

Dra Fernanda Goulart
Fernanda
Colposcopista
Colposcopia
Ginecologista 
Ginecologia
PTGI

Dra. Fernanda Goulart — Ginecologia e Colposcopia

A Dra. Fernanda se formou em Medicina pela UFAM em 2015, com residência em Ginecologia e Obstetrícia pela mesma instituição. É especialista em Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia pela ABPTGIC, área diretamente relacionada ao diagnóstico e acompanhamento de lesões causadas pelo HPV. Você pode conhecer sua trajetória completa neste artigo.

O HPV é um vírus com mais de 200 subtipos já identificados, que infecta a pele e as mucosas. É considerado a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo — estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas entrará em contato com o vírus em algum momento da vida.

Na maior parte dos casos, o próprio sistema imunológico elimina a infecção espontaneamente, em geral dentro de 1 a 2 anos, sem deixar sequelas. Em uma parcela menor de pessoas, porém, o vírus persiste — e é essa persistência que pode levar a lesões e, eventualmente, ao câncer.

HPV

Representação do Papilomavírus Humano (HPV)

A transmissão ocorre principalmente por contato pele a pele ou mucosa a mucosa durante a relação sexual — vaginal, anal ou oral —, e não depende necessariamente de penetração completa.

Por isso, o preservativo reduz, mas não elimina totalmente o risco de transmissão: o vírus pode estar presente em áreas da pele genital não cobertas pela camisinha. Ainda assim, seu uso é uma medida importante de proteção, inclusive contra outras ISTs.

A transmissão não sexual (por exemplo, de mãe para bebê durante o parto, ou por fômites) é possível, mas bem menos frequente que a via sexual.

Nem todo HPV tem o mesmo potencial de causar doença. Os subtipos são classificados em dois grandes grupos:

  • Baixo risco oncogênico (ex: tipos 6 e 11): associados a verrugas genitais (condilomas), sem potencial de evoluir para câncer
  • Alto risco oncogênico (ex: tipos 16, 18, 31, 33, 45, entre outros): associados ao desenvolvimento de lesões precursoras e câncer, especialmente do colo do útero

Os tipos 16 e 18 são responsáveis pela maioria dos casos de câncer de colo do útero no mundo, segundo dados da FEBRASGO e da OMS.

papiloma virus humano
utero
cancer de colo uterino
cancer da cervice

HPV e sua relação com o câncer de colo do útero

O HPV pode se manifestar de diferentes formas, dependendo do subtipo e da resposta do organismo:

Causadas por tipos de baixo risco, aparecem como pequenas lesões em relevo, isoladas ou em grupo, na região genital ou anal. São visíveis e, embora incômodas, não têm potencial de malignização.

verruga genital
condiloma
lesão verrugosa benigna

Condiloma acuminado (verruga genital) — lesão causada por tipos de HPV de baixo risco oncogênico

lesão intraepitelial de baixo grau
cervice

Lesão intraepitelial cervical de baixo grau (Fonte: UpToDate, 2024)

Causadas por tipos de alto risco, são alterações microscópicas no colo do útero, geralmente sem sintomas — por isso só são identificadas por exames de rastreamento, como o teste de DNA-HPV e a colposcopia.

lesão intraepitelial cervical de alto grau
acetobranco 
colo alterado

Lesão intraepitelial cervical de alto grau (Fonte: UpToDate, 2024)

Essas lesões são classificadas por grau de gravidade, do mais brando ao mais avançado:

alterações do colo uterino
lesào de alto grau
lesão de baixo grau
nic 1
nic 2
nic 3

Classificação das alterações do colo do útero: normal, lesão de baixo grau, alto grau e câncer

Não existe um exame de sangue de rotina para detectar o HPV. O diagnóstico é feito por meio de exames ginecológicos específicos:

  • Teste de DNA-HPV (genotipagem): método atualmente priorizado pelo INCA e Ministério da Saúde — identifica a presença e o subtipo do vírus com alta sensibilidade
  • Colposcopia: permite visualizar diretamente as lesões no colo do útero, na vagina e na vulva
  • Papanicolau (colpocitologia oncótica): método citológico tradicional, ainda em uso nos locais em fase de transição para o teste molecular
  • Captura híbrida: identifica se há infecção por HPV de alto risco, sem apontar o subtipo exato — método mais simples, mas menos específico que a genotipagem
teste hpv
coleta de genotipagem hpv
coleta exame

Coleta de material para teste de HPV

A colposcopia, em especial, é uma ferramenta central nesse processo — permitindo comparar visualmente o colo do útero normal com áreas de alteração e direcionar a biópsia quando necessário.

colposcopia
exame
paciente realizando exame
colo uterino normal
colo uterino alterado

Colposcopia: comparação entre colo do útero normal e alterado

Em agosto de 2025, o Ministério da Saúde e o INCA aprovaram oficialmente as novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, que incorporam o teste molecular de DNA-HPV oncogênico como método primário de rastreamento no SUS, substituindo gradualmente o Papanicolau isolado.

As principais mudanças trazidas pelo novo protocolo são:

  • Faixa etária: rastreamento recomendado dos 25 aos 64 anos
  • Genotipagem parcial: identifica isoladamente os tipos 16 e 18 (podendo incluir o 45), agrupando os demais tipos oncogênicos em um pool
  • Genotipagem estendida: identifica separadamente um número maior de tipos de alto risco (16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, entre outros)
  • Intervalo entre exames: quando o teste de DNA-HPV der negativo, o intervalo para a próxima coleta passa a ser de 5 anos — bem maior que os 3 anos do rastreamento citológico tradicional

Segundo o próprio Ministério da Saúde, o teste de DNA-HPV apresenta sensibilidade superior à citologia (Papanicolau) para detectar a presença dos tipos oncogênicos do HPV, identificando de forma mais precoce as mulheres com maior risco de desenvolver lesões precursoras do câncer do colo do útero. Quando o resultado é positivo, a citologia reflexa é utilizada para identificar alterações celulares e orientar a necessidade de investigação complementar e seguimento, estratégia que contribui para reduzir a mortalidade pela doença, responsável por cerca de 17 mil novos casos por ano no Brasil.

A relação entre HPV e câncer de colo do útero é uma das mais bem estabelecidas na medicina: praticamente todos os casos de câncer de colo do útero estão associados à infecção persistente por HPV de alto risco.

Isso não significa que toda infecção leva ao câncer — pelo contrário: a evolução costuma levar anos, passando por estágios de lesão precursora que, quando identificados e tratados a tempo, praticamente eliminam o risco de progressão. É exatamente por isso que o rastreamento regular é tão importante.

colo uterino
cancer 
câncer
lesão do colo

Localização do câncer de colo do útero

A vacinação é a principal forma de prevenção primária contra o HPV e os cânceres associados a ele. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece a vacina quadrivalente (protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18) gratuitamente pelo SUS.

vacina
HPV
imunização

Vacinação contra o HPV — principal estratégia de prevenção

O esquema vacinal no SUS, atualizado conforme dados de 2024-2025, é:

  • Meninas e meninos de 9 a 14 anos: dose única (esquema simplificado desde 2024, seguindo recomendação da OMS)
  • Jovens de 15 a 19 anos: resgate vacinal temporário disponível até o primeiro semestre de 2026, para quem perdeu a idade recomendada
  • Pessoas imunocomprometidas (HIV/Aids, oncológicos, transplantados): três doses, independentemente da idade
  • Vítimas de violência sexual: duas doses (9 a 14 anos) ou três doses (15 a 45 anos)
  • Usuários de PrEP entre 15 e 45 anos: três doses

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil atingiu 82% de cobertura vacinal entre meninas e 67% entre meninos de 9 a 14 anos em 2024 — superando a média global. Desde 2014, mais de 75 milhões de doses já foram distribuídas pelo SUS.

Hoje, o avanço mais importante em prevenção do HPV é a vacina nonavalente (Gardasil® 9). Diferente da quadrivalente — que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 —, a nonavalente amplia a cobertura para nove subtipos: 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, incluindo cinco genótipos adicionais de alto risco oncogênico.

Está disponível no Brasil desde março de 2023, até o momento apenas na rede privada, para pessoas de 9 a 45 anos. A ANVISA aprovou recentemente também a ampliação da indicação da vacina para prevenção de tumores de orofaringe e outras neoplasias de cabeça e pescoço associadas ao HPV.

A eficácia da vacina nonavalente foi avaliada em 7 estudos clínicos de fase III, incluindo dados combinados publicados na revista Pediatrics (Moreira et al., 2016), com resultados consistentes de segurança e imunogenicidade em milhares de participantes — mulheres, homens, meninas e meninos.

  • Estudos apontam eficácia próxima de 100% na prevenção de infecção persistente pelos 7 tipos oncogênicos e pelos 2 tipos causadores de verrugas genitais, em pessoas ainda não expostas a esses subtipos
  • Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a nonavalente aumenta em cerca de 10% a proteção contra todos os cânceres relacionados ao HPV, com ganho de aproximadamente 20% na proteção específica contra o câncer de colo do útero, em comparação à quadrivalente
  • Uma revisão sistemática Cochrane (2019) comparando as duas vacinas mostrou proteção semelhante contra lesões de alto grau, adenocarcinoma in situ e câncer cervical
  • Estudos de seguimento de 10 anos (Restrepo et al.) confirmam manutenção da resposta imune e da efetividade a longo prazo, sem sinais de perda de proteção

Quem já tomou a vacina quadrivalente não precisa necessariamente repetir o esquema com a nonavalente, já que a quadrivalente cobre os subtipos mais prevalentes. A troca ou complementação deve ser sempre discutida com o médico, considerando o histórico vacinal e a idade.

A prevenção do HPV e de suas complicações combina três estratégias complementares:

  1. Vacinação: a forma mais eficaz de prevenir a infecção pelos subtipos mais associados a câncer e verrugas
  2. Rastreamento regular com teste de DNA-HPV: atualmente o método priorizado pelo INCA e pelo Ministério da Saúde, por sua maior sensibilidade na detecção precoce de lesões precursoras (a citologia — Papanicolau — permanece em uso nos locais onde o teste molecular ainda está em implantação)
  3. Uso de preservativo: reduz (embora não elimine) o risco de transmissão

Não existe um medicamento que elimine o vírus diretamente. Na maioria dos casos, o próprio sistema imunológico elimina a infecção espontaneamente. O que se trata são as manifestações do vírus — verrugas ou lesões precursoras —, não o vírus em si.

Não. A grande maioria das infecções regride espontaneamente. O câncer se desenvolve apenas em uma pequena parcela dos casos de infecção persistente por subtipos de alto risco, geralmente ao longo de vários anos — daí a importância do rastreamento regular.

Sim, é possível. O preservativo reduz significativamente o risco, mas não cobre toda a pele genital, por onde o vírus também pode ser transmitido.

Não necessariamente. A transmissão depende de múltiplos fatores, incluindo a resposta imunológica de cada pessoa. Muitos casais têm apenas um dos parceiros com manifestação identificável em determinado momento.

Sim. A vacina protege contra os subtipos mais comuns, mas não contra todos os tipos de HPV existentes. O rastreamento regular — hoje priorizado por meio do teste de DNA-HPV — continua sendo essencial mesmo para quem já foi vacinada.

Sim, embora o benefício seja maior quanto antes da exposição ao vírus. Grupos específicos (imunocomprometidos, vítimas de violência sexual, usuários de PrEP) têm indicação de vacinação pelo SUS até os 45 anos. Fora desses grupos, a vacina pode ser considerada na rede privada mediante avaliação médica.

Não existe, até o momento, um exame de rastreamento populacional padronizado para HPV em homens assintomáticos, como o teste de DNA-HPV é hoje priorizado para mulheres. A avaliação urológica é indicada diante de lesões visíveis ou sintomas.

As lesões causadas pelo HPV podem ser tratadas e removidas, mas o vírus pode persistir de forma latente ou ocorrer reinfecção por outro subtipo. Por isso o acompanhamento pós-tratamento é fundamental.

O HPV é uma infecção extremamente comum, e na maioria das vezes o próprio organismo resolve sozinho. Ainda assim, seu potencial de causar lesões precursoras e câncer — especialmente do colo do útero — torna a prevenção, a vacinação e o acompanhamento ginecológico regular ferramentas essenciais para a saúde da mulher.

Não deixe suas dúvidas sobre HPV sem resposta. Agende sua consulta e cuide da sua saúde com informação e evidência científica.

Dra Fernanda Goulart
colposcopista
Colposcopia

Atendimento especializado em ginecologia, colposcopia e saúde da mulher, com escuta, acolhimento e orientação individualizada em cada fase da vida.

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