O câncer do colo do útero é, ao mesmo tempo, uma das neoplasias mais evitáveis da medicina e um dos maiores problemas de saúde pública enfrentados pelo Amazonas. Essa combinação — prevenção altamente eficaz de um lado, e uma das piores estatísticas do Brasil do outro — é o ponto de partida deste artigo.
Reunimos aqui dados do mundo, do Brasil e, com atenção especial, do Amazonas e de Manaus, extraídos do relatório mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), publicado em 2025, e das diretrizes de tratamento de 2025 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Dra. Fernanda Goulart — Ginecologia e Colposcopia
Conheça a Dra. Fernanda Goulart
Me formei em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em 2015 e, ainda no mesmo ano, ingressei na residência em Ginecologia e Obstetrícia, também pela UFAM. Ao longo da minha trajetória, me aprofundei em uma área que me fascina: as patologias do trato genital inferior. Conquistei o título de especialista pela Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC). Por cinco anos, atuei como professora universitária. Hoje, atuo na ginecologia clínica e no diagnóstico e tratamento das lesões precursoras em vulva, vagina e colo uterino, com o propósito de oferecer um atendimento humanizado, seguro e de excelência para cada mulher que me procura.
1. Epidemiologia: os Números do Mundo, do Brasil e do Amazonas
No mundo
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o câncer do colo do útero é o quarto câncer mais comum entre mulheres no mundo. Em 2022, uma mulher morria a cada dois minutos em decorrência da doença, e cerca de 85% dessas mortes ocorreram em países de baixa e média renda. Na região das Américas, foram quase 79 mil novos diagnósticos e mais de 40 mil mortes em 2022 — com taxas de mortalidade três vezes maiores na América Latina e no Caribe do que na América do Norte, evidenciando uma desigualdade de saúde marcante.
No Brasil
No Brasil, o câncer do colo do útero é o terceiro tipo mais incidente entre mulheres (excluindo tumores de pele não melanoma) e a quarta causa de morte por câncer nessa população. Para o triênio 2023-2025, o INCA estima 17.010 novos casos por ano, com taxa de incidência de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres. A taxa de mortalidade ajustada é de 4,79 óbitos por 100 mil mulheres — cerca de 20 mortes por dia no país.
No Amazonas
É aqui que os números exigem atenção redobrada: o Amazonas é o estado com as maiores taxas de incidência de todo o Brasil — 27,63 casos a cada 100 mil mulheres (taxa bruta) e 31,71 (taxa ajustada por idade), bem acima da média nacional de 15,38. São cerca de 610 novos casos estimados por ano no estado.
A Região Norte também registra a maior taxa de mortalidade do país por essa doença: 9,92 óbitos por 100 mil mulheres (ajustada por idade) — quase três vezes maior que a Região Sudeste (3,44) e duas vezes maior que a Região Sul (4,67). No Amazonas especificamente, foram 278 óbitos em 2022, com taxa ajustada de 14,29/100 mil. Um dado que ilustra bem a gravidade: enquanto o câncer do colo do útero representa 6% das mortes por câncer em mulheres no Brasil, na Região Norte esse percentual sobe para 15,2%.
Em Manaus: uma exceção positiva no rastreamento
Apesar do cenário estadual desafiador, um dado chama atenção de forma positiva: segundo a pesquisa Vigitel 2023, 84,1% das mulheres de 25 a 64 anos em Manaus realizaram o exame preventivo (Papanicolau) nos últimos três anos — a segunda maior cobertura entre todas as capitais brasileiras, atrás apenas de São Paulo (86,1%) e à frente de Porto Alegre (84%) e Goiânia (83%).
Isso mostra que o desafio amazonense não está, principalmente, na adesão das mulheres ao exame preventivo — mas sim na estrutura de investigação diagnóstica e tratamento após um resultado alterado. Segundo o próprio relatório do INCA (2025), o Amazonas está entre os estados com maior atraso no recebimento de exames pelo laboratório (21,9% dos exames levam mais de 30 dias) e apenas 19% dos serviços do estado oferecem, no mesmo local, os três procedimentos necessários para investigação completa (colposcopia, biópsia e tratamento da lesão precursora). Entender essa diferença — entre fazer o exame e conseguir concluir a investigação — é essencial para explicar por que as taxas do estado permanecem tão elevadas mesmo com boa procura pela prevenção.

Localização do câncer de colo do útero
2. A Causa: Infecção Persistente pelo HPV
Em cerca de 99% dos casos, o câncer do colo do útero está associado à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV) de alto risco oncogênico. Entre os 12 subtipos considerados oncogênicos pela OMS, os tipos 16 e 18 respondem por cerca de 70% dos casos.
O tempo médio entre a infecção pelo HPV e o desenvolvimento do câncer varia entre 10 e 15 anos — uma janela longa que torna o rastreamento periódico uma ferramenta poderosa de prevenção, já que permite identificar e tratar as lesões precursoras muito antes de evoluírem para câncer. Para entender melhor esse processo, já publicamos aqui um artigo completo sobre HPV: O Que É, Como se Transmite e Suas Consequências na Saúde da Mulher.

HPV e sua relação com o câncer de colo do útero
3. Fatores de Risco
- Maior exposição ao HPV (múltiplos parceiros, ou parceiro com múltiplos parceiros)
- Início precoce da vida sexual e situações de violência sexual
- Dificuldade de acesso ao rastreamento e à vacinação
- Tabagismo
- Uso prolongado de contraceptivos orais decorrente ao não uso do preservativo
- Imunossupressão (HIV, transplante, uso de imunossupressores)
Vale reforçar: o HPV é um vírus extremamente prevalente na população em geral, e a maioria das infecções regride espontaneamente. O que eleva o risco de câncer é a persistência da infecção por um subtipo de alto risco, combinada com a ausência de rastreamento.
4. Sintomas
Nas fases iniciais — incluindo as lesões precursoras e, muitas vezes, também o câncer em estágio bem inicial — a doença costuma ser assintomática. É exatamente por isso que o rastreamento periódico é tão importante: ele identifica alterações antes que provoquem qualquer sintoma.
Quando os sintomas aparecem, os mais comuns são:
- Sangramento vaginal anormal: após a relação sexual (sinusorragia), entre os períodos menstruais, ou após a menopausa
- Corrimento vaginal com odor ou aspecto incomum
- Dor pélvica, especialmente durante a relação sexual
Em estágios mais avançados, podem surgir dor nas pernas, inchaço, alterações urinárias ou intestinais e perda de peso — sinais de que a doença já se disseminou além do colo do útero.
5. Diagnóstico e Estadiamento
O diagnóstico é confirmado por biópsia, geralmente guiada por colposcopia — procedimento que já detalhamos em outro artigo sobre colposcopia aqui no site. Uma vez confirmado o câncer, o estadiamento define a extensão da doença e orienta todo o tratamento.
De forma simplificada, a classificação da FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) organiza a doença em:
- Estágio 0 (in situ): lesão restrita à camada mais superficial do colo, ainda não invasiva
- Estágio I: tumor limitado ao colo do útero
- Estágio II: tumor que ultrapassa o útero, mas não atinge a parede pélvica nem o terço inferior da vagina
- Estágio III: tumor que atinge a parede pélvica, o terço inferior da vagina, causa comprometimento renal e/ou envolve linfonodos
- Estágio IV: tumor que se espalha além da pelve ou envolve bexiga/reto (IVA) ou órgãos à distância (IVB)
O estadiamento envolve exame físico detalhado, ressonância magnética de pelve, tomografia ou PET/CT, e exames laboratoriais. Um dado do relatório do INCA (2025) reforça a importância do diagnóstico precoce: nacionalmente, apenas 19,1% dos casos são diagnosticados ainda no Estágio I. A Região Sudeste tem o melhor desempenho (23,9%), enquanto Nordeste e Sul registram mais da metade dos casos (acima de 50%) já em estágios avançados (III ou IV) no momento do diagnóstico.

Classificação das alterações do colo do útero: normal, lesão de baixo grau, alto grau e câncer
6. Tratamento por Estágio
O tratamento é definido pelo estadiamento, pela idade e, em casos selecionados, pelo desejo de preservar a fertilidade. As diretrizes de 2025 da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) resumem a abordagem da seguinte forma:
- Estágio IA (microinvasivo): conização, com possibilidade de preservar a fertilidade; em mulheres com prole constituída, a histerectomia simples costuma ser a opção definitiva
- Estágios IB1-IIA (inicial): histerectomia radical com linfadenectomia pélvica, ou radioterapia associada à quimioterapia (cisplatina) seguida de braquiterapia, para pacientes não candidatas à cirurgia
- Estágios IIB-IVA (localmente avançado): radioterapia associada à quimioterapia com cisplatina, seguida de braquiterapia — com a possível adição de imunoterapia (pembrolizumabe), conforme o estudo KEYNOTE-A18, apresentado em 2023
- Estágio IVB, doença persistente ou recorrente: quimioterapia sistêmica paliativa, associada a imunoterapia e/ou bevacizumabe, conforme o perfil da paciente
A radioterapia interna (braquiterapia) tem papel comprovado no aumento da sobrevida em estágios mais avançados: um estudo com mais de 7 mil mulheres mostrou que sua inclusão no tratamento elevou a sobrevida específica pela doença de 52% para 64% em 4 anos. Já o estudo internacional INTERLACE, publicado na revista The Lancet em 2024, demonstrou que a quimioterapia de indução antes da quimiorradioterapia padrão melhora a sobrevida livre de progressão em casos localmente avançados.

Representação da CAF/conização: tratamento cirúrgico de lesões precursoras e tumores em estágio inicial
7. Taxas de Sobrevida: a Importância do Diagnóstico Precoce
As taxas de sobrevida em 5 anos deixam claro o quanto o momento do diagnóstico influencia o prognóstico. Segundo dados do National Cancer Institute e da American Society of Clinical Oncology, a sobrevida em 5 anos é de aproximadamente:
- 92% quando o tumor está confinado ao colo do útero (equivalente ao Estágio I)
- 56% quando há disseminação para tecidos e órgãos próximos (Estágios II, III e IV inicial)
- 17% quando há metástase a distância (Estágio IV avançado)
Um estudo brasileiro de coorte, com 278 mulheres, encontrou números na mesma direção: sobrevida em 5 anos de 93,5% no Estágio I contra apenas 35,5% no Estágio IV. A diferença entre esses números — mais de 50 pontos percentuais — resume, sozinha, porque o diagnóstico precoce é a variável mais importante no combate a essa doença.
8. Prevenção: Vacina e Rastreamento
A OMS lançou, em 2020, a Estratégia Global de Eliminação do Câncer do Colo do Útero como problema de saúde pública, com a meta de reduzir a incidência mundial para menos de 4 casos por 100 mil mulheres/ano até o final do século. A estratégia se apoia em três pilares, conhecidos como meta 90-70-90:
- 90% das meninas totalmente vacinadas contra o HPV até os 15 anos
- 70% das mulheres rastreadas com um teste de alto desempenho aos 35 e novamente aos 45 anos
- 90% das mulheres com lesões precursoras ou câncer invasivo recebendo o cuidado adequado
Projeções indicam que, se essas metas forem atingidas, a incidência global do câncer do colo do útero pode cair 42% até 2045 e 97% até 2120 — prevenindo mais de 74 milhões de novos casos.
No Brasil, a vacina quadrivalente (HPV 6, 11, 16 e 18) está disponível gratuitamente pelo SUS em dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos, com resgate em dose única para quem tem entre 15 e 19 anos. A vacina nonavalente está disponível na rede privada. Para o rastreamento, o teste de DNA-HPV — hoje priorizado pelo protocolo do INCA e do Ministério da Saúde — tem sensibilidade de 90-95%, contra 50-60% da citologia (Papanicolau) isolada, o que reduz significativamente o risco de deixar passar uma lesão precursora.

Sala de exame equipada com colposcópio, utilizada na investigação diagnóstica
Perguntas Frequentes
Câncer de colo do útero tem cura?
Sim, especialmente quando diagnosticado nos estágios iniciais — a sobrevida em 5 anos ultrapassa 90% nesses casos. Mesmo em estágios mais avançados, existem tratamentos eficazes que podem controlar a doença.
Sempre é preciso retirar o útero?
Não. Em estágios bem iniciais (IA), é possível tratar com conização, preservando o útero e a fertilidade, especialmente em mulheres que desejam engravidar no futuro. A decisão depende do estágio, do tamanho do tumor e do perfil da paciente.
É possível engravidar depois do tratamento?
Em alguns casos selecionados de estágio inicial, sim — com cirurgias que preservam o útero, como a conização ou a traquelectomia. Já em estágios mais avançados, que exigem histerectomia ou radioterapia pélvica, a fertilidade geralmente não é preservada.
O câncer de colo do útero dá sintomas logo no início?
Na maioria das vezes, não. As lesões precursoras e o câncer em estágio inicial costumam ser assintomáticos — por isso o rastreamento periódico com Papanicolau e/ou teste de DNA-HPV é fundamental, mesmo sem nenhum sintoma.
Só quem tem HPV desenvolve esse câncer?
Praticamente sim — cerca de 99% dos casos estão associados à infecção persistente pelo HPV de alto risco. Mas é importante lembrar que a maioria das infecções por HPV é eliminada espontaneamente pelo organismo; o risco está na persistência da infecção.
Quem já tomou a vacina ainda precisa fazer rastreamento?
Sim. A vacina protege contra os subtipos mais associados ao câncer, mas não contra todos os tipos de HPV existentes. O rastreamento continua sendo essencial mesmo para quem já foi vacinada.
Por que o Amazonas tem taxas tão altas?
É uma combinação de fatores: o estado tem dimensões continentais e, em grande parte dele, o transporte é feito por via fluvial — muitas vezes a única opção para chegar a centros de referência como Manaus, o que pode levar horas ou até dias e dificulta o acesso oportuno à investigação diagnóstica e ao tratamento. Some-se a isso a fragmentação da rede de saúde e os atrasos no processamento de exames, mesmo com Manaus registrando uma das melhores taxas de adesão ao exame preventivo entre as capitais brasileiras.
Qual a diferença entre NIC e câncer?
NIC (Neoplasia Intraepitelial Cervical) são as lesões precursoras, ainda restritas à camada superficial do colo do útero — não são câncer, mas podem evoluir para ele se não forem identificadas e tratadas a tempo. O câncer já representa invasão para camadas mais profundas do tecido.
Conclusão
O câncer do colo do útero reúne uma característica rara entre as neoplasias: uma causa bem definida (o HPV persistente), uma história natural longa (10 a 15 anos entre a infecção e o câncer) e ferramentas de prevenção primária e secundária amplamente eficazes. No Amazonas, onde as taxas de incidência e mortalidade são as mais altas do Brasil, essa combinação torna o acompanhamento ginecológico regular ainda mais decisivo.
Para aprofundar os temas relacionados, confira também nossos artigos Conheça Sua Ginecologista e o Que Faz Esse Especialista, HPV: O Que É, Como se Transmite e Suas Consequências na Saúde da Mulher e Colposcopia: Para Que Serve, Como é Feito o Exame e O Que Ele Pode Identificar.
Não deixe suas dúvidas sobre o câncer do colo do útero sem resposta. Agende sua consulta e cuide da sua saúde com informação e evidência científica.

Referências
• INCA — Instituto Nacional de Câncer. Controle do Câncer do Colo do Útero no Brasil: Dados e Números 2025.
• Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Diretrizes de Tratamentos Oncológicos 2025 — Colo do Útero.
• World Health Organization. Global Strategy to Accelerate the Elimination of Cervical Cancer as a Public Health Problem. Geneva: WHO, 2020.
• PAHO/WHO. Cervical Cancer. Pan American Health Organization, 2024.
• Sung H, et al. Global Cancer Statistics 2020: GLOBOCAN Estimates of Incidence and Mortality Worldwide for 36 Cancers in 185 Countries. CA Cancer J Clin. 2021;71(3):209-49.
• Singh D, et al. Global Estimates of Incidence and Mortality of Cervical Cancer in 2020: a Baseline Analysis of the WHO Global Cervical Cancer Elimination Initiative. Lancet Glob Health. 2023;11(2):e197-206.
• Colombo N, et al. Pembrolizumab for Persistent, Recurrent, or Metastatic Cervical Cancer (KEYNOTE-826). N Engl J Med. 2021;385(20):1856-67.
• Lorusso D, et al. Pembrolizumab plus Chemoradiotherapy for High-Risk Locally Advanced Cervical Cancer (KEYNOTE-A18). Ann Oncol. 2023;34:S1279-80.
• McCormack M, et al. Induction Chemotherapy Followed by Chemoradiotherapy versus Chemoradiotherapy Alone in Locally Advanced Cervical Cancer (INTERLACE). Lancet. 2024;404(10462):1525-35.
• Silva GO, et al. Mortalidade por Câncer de Colo do Útero no Mato Grosso, 2013-2022: Estudo Descritivo e Análise de Série Temporal. Epidemiol Serv Saude. 2025;34:e20240503.
• FEBRASGO — Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br
• ABPTGIC — Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia. Disponível em: https://abptgic.org
• FIGO — International Federation of Gynecology and Obstetrics. Disponível em: https://www.figo.org
• FEBRASGO. Campanha Informativa: Câncer de Colo do Útero.