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Dra. Fernanda Goulart — ginecologia e colposcopia

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Colposcopia: Para Que Serve, Como é Feito o Exame e O Que Ele Pode Identificar

Entenda o exame que detecta lesões precursoras do câncer de colo do útero antes que se tornem um problema maior.

Você recebeu a indicação de fazer uma colposcopia e ficou com dúvidas sobre o que esperar do exame? Essa reação é bastante comum.

Neste artigo, você vai entender o que é a colposcopia, quando ela é indicada, como o procedimento é realizado e o que os achados encontrados durante o exame realmente significam — sempre com base nas diretrizes atuais da FEBRASGO, da ASCCP e da IFCPC.

Dra. Fernanda Goulart
Ginecologista
Colposcopista

Dra. Fernanda Goulart — Ginecologia e Colposcopia

Me formei em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em 2015 e, ainda no mesmo ano, ingressei na residência em Ginecologia e Obstetrícia, também pela UFAM. Ao longo da minha trajetória, me aprofundei em uma área que me fascina: as patologias do trato genital inferior. Conquistei o título de especialista pela Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC). Por cinco anos, atuei como professora universitária. Hoje, atuo na ginecologia clínica e no diagnóstico e tratamento das lesões precursoras em vulva, vagina e colo uterino, com o propósito de oferecer um atendimento humanizado, seguro e de excelência para cada mulher que me procura.

1. O Que é a Colposcopia e Para Que Serve

Colposcopia é um exame que utiliza um aparelho chamado colposcópio — uma espécie de lupa binocular externa — para observar o colo do útero, a vagina e a vulva com aumento óptico de até 40 vezes. Essa ampliação permite identificar alterações que não são visíveis a olho nu, especialmente as lesões causadas pelo HPV.

Diferente do Papanicolau, que analisa células colhidas do colo do útero, e do teste de DNA-HPV, que identifica a presença do vírus, a colposcopia é um exame de visualização direta: permite ao médico enxergar a superfície do colo, reconhecer padrões suspeitos e, quando necessário, colher uma biópsia dirigida exatamente na área de maior risco.

A patologia do trato genital inferior e a colposcopia são, inclusive, a área de subespecialização da Dra. Fernanda Goulart, reconhecida no Brasil pela ABPTGIC e, internacionalmente, pela IFCPC (International Federation for Cervical Pathology and Colposcopy).

Colposcopia
paciente realizando exame de colposcopia

Sala de exame equipada com colposcópio

2. Quando a Colposcopia é Indicada

A colposcopia não é um exame de rotina para todas as mulheres — ela é indicada diante de situações específicas, entre elas:

  • Papanicolau alterado: presença de lesão intraepitelial escamosa ou células atípicas na citologia
  • Teste de DNA-HPV positivo para subtipos de alto risco, especialmente 16 e 18
  • Presença de lesões visíveis no colo, na vagina ou na vulva, como verrugas genitais ou áreas suspeitas
  • Sangramento após a relação sexual (sinusorragia) sem causa aparente
  • Acompanhamento pós-tratamento de lesões precursoras já tratadas anteriormente

Segundo as diretrizes da ASCCP (2019), a decisão de encaminhar para colposcopia leva em conta não apenas o resultado atual, mas também o histórico de exames da paciente — o chamado manejo baseado em risco, que evita tanto a subestimação quanto o excesso de procedimentos desnecessários.

3. Como é Feito o Exame

A colposcopia é realizada em posição ginecológica, com o uso de um espéculo — o mesmo utilizado na coleta do Papanicolau. Não é necessário nenhum preparo especial, mas recomenda-se evitar relações sexuais, duchas ou cremes vaginais nas 48 horas anteriores, e o exame idealmente não deve coincidir com o período menstrual.

O procedimento, em geral, segue estes passos:

  1. Limpeza do colo do útero com soro fisiológico, para remoção de secreções
  2. Aplicação do ácido acético (a 3-5%): as células com maior atividade nuclear — como as alteradas por HPV — reagem ficando esbranquiçadas (o chamado epitélio acetobranco)
  3. Observação sob aumento óptico, muitas vezes com filtro de luz verde, que realça o padrão dos vasos sanguíneos
  4. Teste de Schiller (lugol): uma solução de iodo é aplicada sobre o colo — células normais, ricas em glicogênio, coram-se em marrom; áreas alteradas não absorvem o iodo e permanecem mais claras (iodo-negativas)
  5. Se necessário, coleta de biópsia dirigida na área de maior suspeita
Colo corado com Schiller
lesão positiva no colo do utero

Teste de Schiller positivo: área iodo-negativa (amarelada), indicando alteração celular

O exame completo dura, em média, 15 a 20 minutos, e costuma causar apenas um desconforto leve, semelhante ao de uma cólica — sem necessidade de anestesia na maioria dos casos.

Exame colposcopia
Ginecologista realizando colposcopia
microscópio

Colposcopia sendo realizada

4. O Que a Colposcopia Pode Identificar

Os achados observados durante o exame seguem a terminologia colposcópica da IFCPC (2011), adotada internacionalmente. De forma resumida, a avaliação inclui:

  • Avaliação geral: se a colposcopia é adequada, se a junção escamocolunar (limite entre os dois tipos de tecido do colo) está completamente visível, e o tipo de zona de transformação
  • Achados normais: epitélio escamoso original, epitélio colunar, zona de transformação fisiológica
  • Achados anormais grau 1 (menores): epitélio acetobranco tênue, mosaico e pontilhado finos — geralmente associados a lesões de baixo grau
  • Achados anormais grau 2 (maiores): epitélio acetobranco denso, mosaico e pontilhado grosseiros, bordas nítidas — associados a lesões de alto grau
  • Achados suspeitos de invasão: vasos atípicos, superfície irregular, necrose — exigem investigação imediata
colo uterino alteraro
lesão baixo grau
nic 1
ácido acético
acetobranco

Colo do útero após aplicação de ácido acético, com lesão acetobranca de baixo grau (achado colposcópico grau 1)

Nem toda alteração colposcópica representa doença grave. É justamente a experiência do colposcopista que permite diferenciar alterações benignas de achados que realmente precisam de biópsia e acompanhamento mais próximo.

colo uterino normal vs colo alterado
colposcopia com biopsia
biopsia do colo

Colposcopia: comparação entre colo do útero normal e alterado

5. Biópsia Dirigida — Quando é Feita

Quando a colposcopia identifica uma área suspeita, o médico pode colher uma pequena amostra de tecido exatamente dessa região — a chamada biópsia dirigida. O procedimento costuma causar apenas um desconforto leve, comparável a uma cólica, e geralmente não exige anestesia.

A amostra é então enviada para análise histopatológica, que vai confirmar (ou não) a presença de lesão e definir seu grau de intensidade — informação essencial para decidir a conduta mais adequada.

6. Classificação NIC I, II e III e Conduta para Cada Grau

O resultado da biópsia classifica o grau de comprometimento celular em Neoplasias Intraepiteliais Cervicais (NIC), numa escala de intensidade crescente:

  • NIC I (baixo grau): alta taxa de regressão espontânea, especialmente em mulheres jovens — a conduta costuma ser de acompanhamento, sem necessidade de tratamento imediato
  • NIC II (grau intermediário): conduta individualizada — em mulheres mais jovens ou com desejo de preservar a fertilidade, a observação rigorosa pode ser considerada; em outros casos, o tratamento é indicado
  • NIC III (alto grau): maior risco de progressão para câncer invasivo — o tratamento costuma ser recomendado

Essas recomendações seguem os princípios do manejo baseado em risco da ASCCP (2019): pacientes com o mesmo risco recebem a mesma conduta, independentemente de pequenas variações no resultado isolado do exame.

alterações no colo do útero
lesão de alto e baixo grau
câncer do colo do útero
colo do útero normal

Classificação das alterações do colo do útero: normal, lesão de baixo grau, alto grau e câncer

7. Tratamentos Após a Colposcopia: CAF/Conização, Crioterapia e Laser

Quando o tratamento é indicado, a escolha da técnica depende do grau da lesão, do tamanho, da localização e do perfil da paciente:

  • CAF/LEEP (cirurgia de alta frequência): remove a zona de transformação com uma alça diatérmica, permitindo a análise histológica completa das margens. É a técnica preferida para NIC II e III, sobretudo quando há suspeita de invasão, com taxas de cura acima de 90%
  • Crioterapia: congela o tecido alterado com gás refrigerante (óxido nitroso ou CO₂). Tem custo mais baixo e bons resultados em lesões pequenas de NIC I e II, desde que a junção escamocolunar esteja completamente visível — mas não permite a análise histológica da lesão, já que o tecido é destruído
  • Laser de CO₂: vaporiza ou excisa o tecido com bastante precisão e menor sangramento, mas exige equipamento de maior custo e é menos disponível na rede pública
  • Conização a frio (bisturi): reservada para situações específicas, como suspeita de comprometimento glandular ou quando a CAF não é suficiente
conização
cone
cirurgia do colo do útero

Representação da CAF/LEEP: remoção da zona de transformação do colo do útero com alça diatérmica

Um tema em discussão crescente na literatura é a vacinação contra o HPV após o tratamento excisional (CAF/conização) em mulheres diagnosticadas com NIC 2+ ou adenocarcinoma in situ (AIS). Uma revisão sistemática Cochrane (2025) avaliou o papel da vacinação nesse contexto, e uma proposta técnica de inclusão dessas mulheres como grupo prioritário de vacinação no Programa Nacional de Imunizações já está em discussão. Trata-se, porém, de um tema com evidências ainda em evolução — vale sempre conversar com seu ginecologista sobre a indicação no seu caso.

8. Colposcopia na Gestação

A colposcopia é um exame seguro durante toda a gestação, em qualquer idade gestacional, e seu principal objetivo nesse período é excluir a presença de câncer invasivo. O colo do útero da gestante fica naturalmente mais vascularizado e edemaciado, o que pode simular alterações e exige um profissional experiente para a interpretação correta.

A biópsia, quando indicada, só é realizada se houver forte suspeita de invasão — já que o aumento da vascularização eleva o risco de sangramento. Lesões precursoras (NIC I, II ou III) identificadas na gestação costumam ser apenas acompanhadas, com reavaliação entre 6 e 12 semanas após o parto, quando muitas dessas alterações regridem espontaneamente. O tratamento (CAF ou conização) é, em geral, postergado para depois do parto, exceto em casos de forte suspeita de câncer invasor.

9. Colposcopia x Outros Exames

  • Papanicolau (colpocitologia): exame de rastreamento populacional, que analisa células colhidas do colo — não visualiza a superfície do colo diretamente
  • Teste de DNA-HPV (genotipagem): atualmente priorizado pelo INCA e Ministério da Saúde como método primário de rastreamento, identifica a presença do vírus, mas não avalia a superfície do colo
  • Ultrassonografia pélvica: avalia o útero e os ovários, mas não substitui a colposcopia na avaliação da superfície do colo, vagina e vulva

A colposcopia entra, portanto, como exame diagnóstico complementar — solicitado após um resultado alterado no rastreamento, e não como método de rastreamento em si.

10. Frequência e Acompanhamento Pós-Colposcopia

Quando a colposcopia não identifica lesão, ou identifica apenas NIC I, o acompanhamento costuma envolver repetição da citologia e/ou do teste de DNA-HPV em 6 a 12 meses, conforme orientação médica.

Já após o tratamento de NIC II ou III, a ASCCP recomenda três testes de HPV (ou co-testes) negativos consecutivos — geralmente aos 6, 18 e 30 meses — antes que a paciente possa retornar ao intervalo de rastreamento de rotina a cada 3 anos.

Na maioria dos casos, não. O exame costuma causar apenas um desconforto leve, semelhante ao de uma cólica, principalmente se houver coleta de biópsia. Anestesia geralmente não é necessária.

Não é o ideal. O sangramento menstrual pode dificultar a visualização do colo do útero. Sempre que possível, o exame deve ser agendado fora do período menstrual.

Recomenda-se evitar relações sexuais, duchas vaginais e cremes ou óvulos nas 48 horas anteriores ao exame. Fora isso, não há preparo especial necessário.

Não. A maioria dos achados alterados são lesões de baixo grau ou alterações benignas, que exigem apenas acompanhamento. Apenas uma pequena parte dos casos evolui para lesões de alto grau, e menos ainda para câncer.

O prazo varia conforme o laboratório, mas costuma levar entre 7 e 15 dias úteis.

Após a biópsia, recomenda-se evitar relações sexuais, duchas e uso de absorventes internos por cerca de 7 a 10 dias, para permitir a cicatrização adequada do local.

Não. A colposcopia é um exame diagnóstico complementar, solicitado após um resultado alterado no rastreamento — ela não substitui a citologia nem o teste de DNA-HPV como método de rastreamento.

Não. Lesões de baixo grau (NIC I) costumam apenas ser acompanhadas, já que a maioria regride espontaneamente. A decisão pelo tratamento considera o grau da lesão, a idade e o desejo reprodutivo da paciente.

Esse é um tema em discussão na literatura científica atual. Estudos têm avaliado o papel da vacinação após o tratamento de lesões de alto grau (NIC 2+) na redução do risco de reinfecção e recidiva. Vale conversar com seu ginecologista sobre a indicação no seu caso.

Conclusão

A colposcopia é uma ferramenta essencial na prevenção do câncer de colo do útero: permite identificar lesões precursoras ainda em fase inicial, orientar a necessidade (ou não) de biópsia e definir o tratamento mais adequado para cada caso. Contar com um profissional qualificado nessa subespecialidade faz toda a diferença na precisão do diagnóstico e na tranquilidade durante o acompanhamento.

Para entender melhor o papel do ginecologista no cuidado com a sua saúde, confira também nosso artigo Conheça Sua Ginecologista e o Que Faz Esse Especialista, e o artigo sobre HPV: O Que É, Como se Transmite e Suas Consequências na Saúde da Mulher.

Não deixe suas dúvidas sobre colposcopia sem resposta. Agende sua consulta e cuide da sua saúde com informação e evidência científica.

Dra Fernanda Goulart

Referências

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. O diagnóstico e a conduta dependem da avaliação individual.